23.10.09

Mercedes, com a vida cheia de espanha. Sentes o flamenco percorrer-te o corpo desde criança. Assim que te apercebeste que os teus pais cediam aos teus caprichos, pediste aquele vestido perfeito e amaste-o porque era o teu primeiro e único. Mercedes, com os sapatos de cabedal gastos e o suor a escorrer-te pela cara, sabes tão bem o que fazes. Encantaste-o à primeira dança, querias que ele fosse certo para ti. Ele dedilhou na sua guitarra a música que pediste e tu provaste que merecias ser vista. A emoção percorreu-te duma ponta à outra, não só pela recordação imediata da guitarra do teu irmão que agora estava morto, como pela tua excitação por Javier que cada vez tocava mais rápido a buleria. Era como se o país não estivesse em guerra naquele preciso momento. A sala enchia-se de intensidade enquanto a dupla se perdia nos acordes e perfeitos movimentos sincronizados. Javier apreciava esta menina que a seus olhos se tornava uma mulher com formas sensuais e um corpo seguro de si. Ela não poderia ter imaginado isto de outra forma se tudo o que ela mais desejava era impressioná-lo. Os seus movimentos eram agora cada vez mais rápidos, quase entorpecedores até para ela mesma que já se tinha habituado ao longo dos anos ao peso e à dor que esta dança trazia. Tudo o que Mercedes menos desejava era o fim desta paixão, a volta à realidade, ao caos do seu país e quando ouviu o último acorde vindo de Javier, continuou o seu próprio espéctaculo a solo.

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